Governo do Distrito Federal
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19/09/17 às 10h50 - Atualizado em 20/09/17 às 9h30

O mundo precisa de mais ursos-de-óculos

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A gestão atual da Fundação Jardim Zoológico de Brasília (FJZB) implementou uma filosofia de trabalho voltada para a conservação da biodiversidade e do bem-estar animal, seguindo parâmetros dos zoológicos modernos ao redor do mundo.  Uma das espécies de interesse para nossos programas é o urso-de-óculos (Tremarctos ornatus).

Trata-se da única espécie de urso da América do Sul, que habita a Cordilheira dos Andes desde a Venezuela até a Bolívia, e está considerada “vulnerável à extinção” pela Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN). Algumas estimativas sugerem que existam menos de 5 mil indivíduos na natureza que sofrem grande pressão da caça ilegal e destruição do habitat pelo avanço de fazendas e mineradoras, da exploração de petróleo e da construção de estradas. Isto faz com que as populações estejam fragmentadas e isoladas, sujeitas a problemas de saúde que podem surgir da consanguinidade.

Apesar de áreas protegidas terem sido criadas nos últimos 20 anos, a avaliação da IUCN alerta que os locais representam uma fração pequena do habitat restante do urso-de-óculos e a perda continua ao ritmo de 4% ao ano. Além disso, existe a ameaça do abate de ursos para o uso de partes de seu corpo com propósitos ritualísticos e de curandeirismo.

Tendo em vista que uma das formas de auxiliar na conservação da biodiversidade é por meio do estabelecimento de populações saudáveis e viáveis em cativeiro, nos zoológicos e criadouros, a FJZB estabeleceu um Acordo de Cooperação Técnica com o Zoológico Vesty Pakos em La Paz, Bolívia, e o urso-de-óculos é uma das espécies foco da nossa atenção. Os estudos sobre este animal no país, onde é conhecido popularmente como jucumari, começaram em 1997 graças a um patrocínio da Wildlife Conservation Society que é responsável por 4 zoos e 1 aquário em Nova York. Os dados coletados demonstraram que a espécie prefere os bosques das partes altas e as charnecas alpinas, onde se alimenta principalmente de plantas da família das bromélias e pode complementar esta dieta com insetos, aves e mamíferos como roedores e cervos. O urso-de-óculos também já foi observado alimentando-se de carcaças de animais mortos.

A dieta e a preferência de habitat tornam a espécie vulnerável a outra ameaça que tem um potencial altamente destrutivo sobre os menos de mil ursos estimados na Bolívia: a mudança climática. Estudos conduzidos pela bióloga Dra. Ximena Velez-Liendo mostram que o aquecimento global reduz a extensão e qualidade dos bosques nas partes altas das montanhas, afetando suas plantas e diminuindo a oferta de alimentos para os ursos. Isto força os animais a entrarem em aldeias e plantações para procurar comida e ocasiona conflitos com as pessoas, que costumam abatê-los.

A situação do urso-de-óculos na Bolívia e demais países de sua ocorrência é um grande exemplo de uma espécie que necessita de ações conjuntas entre zoológicos e organizações que trabalham no ambiente natural pela sua conservação. Esta é, inclusive, uma das diretrizes da Estratégia de Conservação da Associação Mundial dos Zoos e Aquários (WAZA), que recomenda o manejo das populações de animais sob cuidados humanos de forma a manter ou aumentar a diversidade genética, estabelecendo uma população autossustentável que possa fornecer suporte aos seus congêneres em estado selvagem.

Nas palavras do biólogo Dr. Russell A. Mittermeier, vice-presidente da ONG Conservation International, é preciso ver “a natureza e o cativeiro não como construções separadas, mas como um processo contínuo através do qual todos devemos trabalhar para alcançar o sucesso na conservação a longo prazo. ” Conforme demonstrado por um levantamento genético divulgado em 2012, a população deste animal no Brasil apresenta um alto grau de parentesco e grande risco de consanguinidade, sendo este um fator que compromete a saúde dos filhotes que por ventura sejam gerados e a viabilidade a longo prazo da espécie nas instituições do país. Isto significa que é imprescindível a adoção de um manejo populacional cooperativo entre os zoológicos brasileiros tanto para fornecer maior bem-estar aos indivíduos como para que haja uma contribuição efetiva à conservação do urso-de-óculos.

 

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